Nem toda violência deixa marcas visíveis. Muitas vezes, ela começa em uma fala considerada “normal”, em uma ameaça tratada como brincadeira, no controle, na humilhação, na dependência financeira ou no isolamento progressivo de uma pessoa dentro da própria casa. Para ampliar o olhar sobre essas manifestações e discutir caminhos de prevenção e enfrentamento, será realizado, nos dias 25 e 26 de setembro, em Brasília, o II Simpósio Centro-Oeste de Terapia Familiar, com o tema “Violências nos Sistemas Familiares: Conhecer para Transformar”. Promovido pela Associação de Terapia Familiar de Goiás (ATFAGO) e pela Associação de Terapia Familiar de Mato Grosso (ATFMT), o encontro será presencial e reunirá profissionais, pesquisadores, estudantes e integrantes da rede de proteção.
Para a presidente da ATFAGO, Florença Ávila, muitos comportamentos violentos ainda são naturalizados culturalmente dentro das famílias. Segundo ela, a violência está relacionada a relações de poder e dominação e pode atingir mulheres, crianças, adolescentes, homens e idosos. “Muitas vezes, são situações consideradas culturalmente aceitas, mas que são violências que pesam severamente no psicológico das pessoas, sobretudo das mulheres”, afirma. Florença chama atenção para a violência psicológica, que pode envolver humilhação, submissão, dependência financeira ou emocional e repressão, instalando-se gradualmente até fazer com que a própria vítima passe a adaptar sua vida à violência.
Florença também destaca que o fenômeno precisa ser compreendido para além da relação tradicional entre agressor e vítima. Na perspectiva da Terapia Familiar, a violência se constitui nas relações e pode reproduzir padrões entre gerações. “Muitas vezes, o agressor não tem consciência de que o que ele faz é uma violência e do quão nocivo e prejudicial é a forma como ele trata o outro”, explica. Para ela, a conscientização é fundamental para interromper ciclos de violência.
A presidente da ATFMT, Adriana Trindade Ogawa, ressalta que identificar a violência exige atenção para sinais que nem sempre são percebidos. “Nem sempre ela é visível. Além da agressão física, ela pode aparecer no controle, nas ameaças, na humilhação, no isolamento e no medo”, afirma. Segundo Adriana, um sinal de alerta é quando alguém modifica sua maneira de agir para evitar a reação de outra pessoa. “Onde existe medo, coerção e controle, precisamos olhar com atenção”, pontua. Ela reforça que a Terapia Familiar pode ajudar a compreender os padrões relacionais e seus impactos, mas faz uma ressalva: “Compreender a dinâmica não significa justificar a violência. A prioridade é sempre a segurança”.
É esse olhar ampliado que orienta o simpósio, que pretende aproximar Terapia Familiar, Psicologia, Saúde, Assistência Social, Educação, Justiça e outros integrantes da rede de proteção. “A violência precisa ser pensada também como prevenção. A educação é fundamental nessa fase preventiva”, destaca Florença.
O evento é aberto a psicólogos e terapeutas familiares, mas também a assistentes sociais, médicos, enfermeiros, pedagogos, profissionais da Justiça e da rede de proteção, pesquisadores, docentes e estudantes. A programação terá conferência magna, minicursos, mesas-redondas, diálogos integrativos, apresentação de trabalhos científicos, lançamento de livros e momentos de integração entre profissionais de diferentes estados.
Mais do que promover atualização profissional, o II Simpósio Centro-Oeste de Terapia Familiar pretende ampliar o debate sobre uma violência que muitas vezes permanece escondida dentro das próprias relações familiares. A proposta é transformar conhecimento em reconhecimento, prevenção e capacidade de intervenção, fortalecendo uma atuação interdisciplinar capaz de romper com a naturalização da violência e contribuir para relações familiares mais seguras.